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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Signo, Abdução, Indução, Dedução, Semântica, Sintaxe e Pragmática

Universidade Federal da Bahia – UFBA
Instituto de Matemática e Estatística
Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação – PGCOMP
MATE85 – Tópicos em Sistema de Informação e WEB I



Aluno: Fábio Correia de Rezende


A sociedade atual viveu, vive e viverá mudanças que atingem aspectos culturais, sociais, econômicos, religiosos, dentre outros numa relação associada aos avanços tecnológicos. Com a tecnologia atual e a futura, pode-se imaginar aonde o ser humano chegará ou aonde deseja chegar no avanço do conhecimento. É possível associar avanço tecnológico com o avanço da Ciência. Ambos caminham lado a lado.
O ato da busca pelo conhecimento se deu através de várias fases na história da humanidade. Por exemplo, no Renascimento, no Iluminismo, no Positivismo. E na Revolução Industrial (numa era mais moderna) a humanidade começou a romper fronteiras mais rapidamente, pois as necessidades instigam os homens a buscarem soluções para as situações problemas. E hoje, com a Internet literalmente na palma da mão, o acesso ao conhecimento tornou-se mais prático, dinâmico e rápido. Porém, ainda com muitas restrições ao nível mundial quantitativo de usuários.
De acordo com Otaviano Pereira em sua obra O que é teoria, há três tipos de Ciências: Ciências Formais – Lógica e Matemática; Ciências Empírico-formais – Física, Biologia, Química, etc; Ciência Hermenêuticas ou Interpretativas – as ciências humanas. Esse conjunto de ciências está alicerçado em torno de teorias. Todas elas possuem métodos e técnicas capazes de explicar sinteticamente através de atos abstrativos todo o conjunto de doutrinas a qual pertence cada uma. Toda teoria é composta pelas abordagens Epistemologia, Metodologia e Ontologia.
Para contribuir na construção deste texto, abordaremos sobre a Ciência da Computação e sua relação com abdução. Traremos o filósofo Charles Sander Peirce com a sua teoria dos signos. Estabeleceremos um paralelo da Semântica, Sintaxe e Pragmatismo. E uma breve explicação sobre classificação dos signos, juízo perceptivo. Tudo relacionado à ciência da computação.
A ciência da computação, segundo a Wikipédia é uma ciência que estuda as técnicas, metodologias e instrumentos computacionais, (...) baseadas no uso do processamento digital. Também abrange as técnicas de modelagem de dados e os protocolos de comunicação, além de princípios que abrangem outras especializações da área.
Muitas contribuições vem surgindo com o avanço da Ciência da Computação em diversas áreas, por exemplo, na educação muitas tecnologias são utilizadas para melhorar e aperfeiçoar a qualidade das metodologias em salas de aulas, através do uso do computador. Na educação a distância os Ambientes Virtuais simulam salas de aulas para o aluno estudar conforme suas necessidades. A adaptabilidade nos horários é um fator primordial para os alunos que buscam essa modalidade de ensino.  Na saúde, já existem robôs auxiliando médicos em diversos procedimentos cirúrgicos. A ciência da computação contribui de alguma forma na vida das pessoas seja diretamente ou indiretamente a qual na maioria das situações já é algo comum – “imperceptível”.
Agora, como podemos utilizar os aparatos tecnológicos de forma crítica, construtiva e não nos submetendo a sermos simplesmente usuários tecnicistas e passivos do rol tecnológico? Ao longo da história da humanidade, surgiram muitos pesquisadores, estudiosos que sempre buscaram entender o funcionamento da sociedade em aspectos sociais, econômicos, culturais e outros. Assim, focaremos no filósofo Charles Sander Peirce que contribui significativamente com suas pesquisas, atualmente para os estudos em diversas áreas na filosofia, comunicação, psicologia, medicina, informática, etc. A teoria criada por esse autor focada na ciência dos Signos através da Semiótica que falaremos mais adiante sobre esse assunto.
Peirce (1839 – 1914), formou-se em Química pela universidade de Harvard. Foi matemático, físico, astrônomo. É considerado o primeiro psicólogo experimental nos Estados Unidos. Desde sua infância, interessou-se por Lógica que foi o foco dos seus trabalhos teóricos além da Matemática e Filosofia. Foi fundador do Pragmatismo. Peirce dedicou os últimos 30 anos de sua vida a estudos sobre a Semiótica, produziu cerca de 80 mil manuscritos, sendo 12 mil publicados. Sua obra é estudada por muitos pesquisadores, incluindo brasileiros como Lúcia Santaella e Lauro Frederico Barbosa da Silveira a qual contribuem para o avanço do conhecimento no campo da Ciência da Computação.
A Semiótica é uma teoria estuda e desenvolvida também por Peirce, pois há outros pesquisadores que a estudam, porém enfoques diferenciados. É considerada a Ciência dos Signos. O termo Semiótica, segundo Santaella (2012) vem do grego, cuja raiz é “semeion” que quer dizer signo. Também pode ser interpretada como a ciência geral de todas as linguagens. Há três ramos na semiótica: Gramática, Lógica e Retórica (Metodêutica). A gramática é a relação das interpretações. A lógica é entendida como as verdades das representações e a retórica é a eficácia da semiose, um signo da origem a outro signo. Além desses três ramos, há três grandes domínios na semiótica: Sintaxe, Semântica e Pragmática. A sintaxe estuda as palavras enquanto concordância, a semântica expressa o sentido, interpretação das palavras. E a pragmática aborda uma estrutura lógica, ou seja, fazemos emissão de juízo a qual afirmamos ou negamos algo, considerações de ordem prática. (SANTAELLA, 2012).
Segundo Anderson (1997), o signo é “qualquer coisa que pode representar algo para alguém sob determinados aspectos ou capacidades”. De acordo com Isaac Epstein (199, p. 18), para Peirce o signo é “algo que, sob certo aspecto ou de algum modo, representa alguma coisa pra alguém”. Existem vários autores que explicam o significado de signo, porém não é trivial essa tarefa. Conceituar o signo é tão complexo porque o signo é uma entidade central e importante na e para a semiótica quanto os átomos em física, as células em biologia ou os números em matemática. (Epstein, p 16.).
Explanaremos uma rápida classificação dos signos na teoria de Peirce. Os signos mantem uma relação de um com o outro. Assim, temos o signo da relação com ele mesmo, a relação do signo com o objeto e a relação do signo com o interpretante. Não exploraremos detalhes sobre a classificação porque o foco desse texto está em outros aspectos da teoria peirceana, citada anteriormente. Veja abaixo uma tabela de forma sintética expondo a classificação dos signos.
Signo - Representante
Signo – Objeto
Signo - Interpretante
Qualissigno
Ícone
Rema
Sinsigno
Índice
Dicente
Legisigno
Símbolo
Argumento
Tabela 1. Classificação da relação sígnica de Peirce. Fonte: Santaella, 2012. Adaptado.
De forma bem sintética, essa classificação dos signos está enquadrada nas categorias elaboradas por Peirce. São elas: Primeiridade, Secundidade e Terceiridade. Na primeira coluna da tabela acima, o Qualissigno pode ser uma mera qualidade do signo, enquanto o sinsigno é o real, concreto, existente. E o legisigno é uma lei geral. Na coluna do meio, o ícone pode ser interpretado como objeto que possui certo traços, por exemplo, quadros, esquema, metáforas. O índice é uma relação direta, causal, real com o objeto, por exemplo fumaça, placas, etc. E o símbolo designa o objeto. Na relação do signo com o interpretante, o rema é predicado, desperta sensações, não capacitam para tomar decisões. O dicente por afirmar verdadeiramente ou falsamente. E o argumento é uma lei geral. Então, a tricotomia peirceana do signo é a relação do objeto - interpretante – representate. (Santaella, 2012).

ABDUÇÃO  
            Charles Sanders Peirce estudou a fundo os signos. Hoje, podemos reconhecer através de seus estudos o Raciocínio Abdutivo. A abdução é compreendida como um pensamento inicial de um processo lógico a qual parte da elaboração provisória de hipóteses que sejam ao menos o mínimo capazes de verificação e experimentação (MATOS, STRAFORINI, 2008).
            Para Peirce, o raciocínio abdutivo é a fonte das descobertas através da geração de hipóteses, ou seja o pensamento lógico. “A abdução para Peirce é como adivinhar no seu sentido epistemológico, o poder instintivo para geração de hipóteses buscando a solução para determinadas situações, sejam elas técnicas ou cognitivas”. (DENTZ, 2010)
            A abdução na ciência da computação pode proporcionar aos criadores e desenvolvedores de softwares ligações correlacionadas as necessidades da sociedade para que os softwares e hardwares sejam fáceis de manuseá-los e úteis em momentos específicos ou generalizados. A abdução “contribuirá para a definição de estratégias, métodos e mecanismos que visem na aprendizagem tecnológica, diante dos mais variados padrões e inovações de softwares” (MATOS, STRAFORINI, 2008).
            Frequentemente é inserido na sociedade um celular mais moderno, um computador com configurações em softwares mais modernos. Frente a essas novidades, a sociedade não precisar iniciar do zero para aprender a utilizar os novos equipamentos tecnológicos. A partir dos conhecimentos prévios, e o método abdutivo, inferimos os conhecimentos anteriores – hipóteses, as quais são testadas e assim novos conhecimentos irão surgindo ao passo que cada hipótese abdutiva seja validada ou refutada. Conforme Santaella (2008), “A abdução é um quase-raciocínio, instintivo, uma adivinhação altamente falível, mas é o único tipo de operação mental responsável por todos os nossos insights e descobertas”.

SEMÂNTICA, SINTAXE E PRAGMATISMO
            Como dito anteriormente, a semântica, sintaxe e pragmatismo são os três grandes domínios da Semiótica. Isso a partir de um ponto de vista mais tradicional que foi atribuído pelo filósofo Charles Morris em 1983. (LOPES-PERNA, et al, 2015).
            Entende-se a pragmática como um sequência de fenômenos a qual atribui significados das sentenças oriunda do falante. A pragmática é estabelecida a partir de dois pontos que são o relacionamento entre as frases e o contexto. No primeiro ponto o foco está apoiada na frase precedente, ou seja, para a construção de uma representação nova, dependerá sucessivamente da anterior. Ou seja, através de um signo será gerado outro signo. No segundo ponto, o contexto, é importante para que uma nova representação ocorra. Assim, novas representações vão surgindo e o universo se expande unindo as representações já existentes. (VIEIRA e STRUBE, 2002).
            Dessa forma, entendemos que a pragmática não é simplesmente analisar frases, sentenças isoladas. Necessita do contexto, analisar o discurso. A língua e seus vários modos de utilização, influência nessa análise para se tomar decisões. É nesse contexto que entra a ciência da computação. Para os usuários, desenvolvedores utilizarem e construírem softwares há necessidade do conhecimento da língua e suas diversas formas de utilizações e variações estabelecendo padrões a serem considerados em suas generalizações. Assim, de acordo com Levinson (1987), a pragmática está associada às outras áreas como por exemplo, linguísticas, fonologia, sintaxe e semântica.
            A semântica pode ser compreendia como o estudo das significações, no campo semiótica é imprescindível sua teoria já que cada signo remete a um objeto. A semântica tem como objetivo encontrar formas para representar o sentido das frases ou sentenças. Pensemos isso no contexto da ciência da computação. Como os programadores podem construir, desenvolver softwares capazes de dar sentidos claros, compreensíveis na linguagem de máquinas?  A linguagem, interfaces e outros componentes precisam fornecer uma linguagem clara, para a interação entre usuários – sistemas – máquinas sejam de forma semântica, ou seja, compreensível. Hoje, temos vários exemplos na Web 2.0, porém ainda precisa-se avançar bastante na linguagem de programação adaptada a linguagem humana.
            A sintaxe, segundo Araribóia (1998), pode ser definida como o estudo detalhado para juntar várias partes de um todo em posições adequadas. Ou seja, cada parte, detalhe é importante para a compreensão do todo. Na área da linguística as frases são classificadas de acordo com as categorias gramaticais, por exemplo, verbo, artigo, substantivo...portanto é importante na ciência da computação o designer precisa compreender claramente como se processa a interpretação da linguagem no momento da criação de softwares. As regras sintáticas elas são aprendidas naturalmente e sistematicamente. Por exemplo, ninguém aprendeu a falar “quero copo eu um”, ou seja, a gramática que internalizamos naturalmente nos mostra a lógica sintática “eu quero um copo”, e numa sociedade letrada, avançamos no conhecimento, produzindo assim a gramatica normativa. Então, ambas as gramáticas são importantes para os desenvolvedores de softwares.
            Assim, A função da análise sintática é diminuir a quantidade de componentes que a semântica pode analisar, reduzindo a complexidade do sistema, considerando que o processamento sintático utiliza menos recurso computacional do que o processamento semântico (SPECIA, 2000).
           
SIGNO E JUÍZO PERCEPTIVO

            Para Peirce, o processo perceptivo é marcadamente interpretativo e sujeito a falhas. (MARQUES, 2004). O que caracteriza a percepção é o senso de externalidade de que o percepto vem acompanhado. Perceber é se defrontar com algo. Em toda percepção, há um elemento de compulsão e insistência, uma insistência inteiramente irracional que corresponde à teimosia com que o percepto resiste na sua singularidade, compelindo-nos a atentar para ele. (SANTAELLA, 2008).
            A percepção como vimos acima, é um ato sujeito a falhas, ou seja, perceber pode ser entendido como uma inferência abdutiva, é criar hipóteses a quais podem ser testadas e a partir desses testes, essas hipóteses podem ser verdadeiras ou falsas. A percepção é caracterizada pela externalidade. É visualizar, defrontar com algo. Segundo Almeida (2009) “um fenômeno pode ser qualquer objeto da percepção, uma imagem, um acontecimento, uma cognição, qualquer coisa que seja suscetível a ser reconhecida por meio da mente.  Esse fenômeno tem aspectos naturais e mentais.
            Segundo Baranauskas, “a percepção é como um processo anterior ao pensamento crítico e controlado”. Pode-se compreende-la como um processo contínuo. Já o juízo perceptivo não é controlável, suas interpretações ocorrem de acordo como estamos preparados ou não para perceber algo.    
            Baranauskas, no seu artigo “Uma abordagem Semiótica à análise de interfaces”, aponta os seguintes pontos sobre o juízo perceptivo na visão de Peirce.
O juízo perceptivo é o ponto de partida de todo o pensamento crítico e controlado.
• Os juízos perceptivos contêm elementos gerais.
• O juízo perceptivo é resultado de um processo não controlável e não totalmente consciente.
            Assim, a ligação entre signo, juízo perceptivo e abdução contribui para tomada de decisões, criação de hipóteses, inferências e cada passo que o usuário precisa realizar quando está diante de uma tela de computador, por exemplo. Outro fator importante nessa relação é a contribuição para evitar ambiguidades durante a utilização das tecnologias. O processo de inferência abdutiva, o juízo perceptivo contribui para a tomada de decisões do usuário relacionado a algum signo que não esteja claro no momento de execução de alguma tarefa.


CONCLUSÃO

No decorrer de todo o texto, abordamos os termos que são considerados relevantes dentro dos estudos Semióticos, especialmente com base no estudos de Charles Sanders Peirce. Trouxemos algumas contribuições explicativas sobre a Ciência da Computação, Abdução. Estabelecemos um paralelo entre a Semântica, Sintaxe e Pragmatismo. E uma breve explicação sobre classificação dos signos, juízo perceptivo. Tudo relacionado à ciência da computação.
Esperamos que o texto contribua aos estudantes que estão iniciando os estudos sobre a Semiótica peirceana para que obtenham uma visão ampla em poucas palavras, postas aqui, sobre o estudo do Signo e Semiótica.

REFERENCIAS

ALMEIDA, Carlos Candido de. PEIRCE E ORGANIZAÇÃO DA INFORMAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES TEORICAS DA SEMIOTICA  E DO DO PRAGMATISMO. Tese (Doutorado em Ciencia da Informação) – faculdade de filosofia e ciências, universidade estadual paulista, 2009.

Andersen, P. B. (1997). A Theory of Computer Semiotics. Updated ed. of 1990. New York: Cambridge University

BARANAUSKAS, M. Cecília C. Uma Abordagem Semiótica à Análise de Interfaces. Instituto de Computação – IC. Cidade Universitária Zeferino Vaz, Campinas (SP).

DENTZ, René Armand. PERCEPÇÃO E GENERALIDADE EM PEIRCE. COGNITIO – ESTUDOS: revista eletrônica de filosofia, são Paulo, volume 7, numero 1, janeiro-junho,2010, pp.019-025.

EPSTEIN, Isaac O Signo. Ed. Princípio. São Paulo, 1999.

MARQUES, Mônica Bernardo Schettini. Sobre a Percepção. Cognitio/Estudos: Revista Eletrônica de Filosofia, PCU, São Paulo.  Número 1 – 2004

LEVINSON. S. BROWN, P.  Politeness. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.

LOPES-PERNA,Cristina Becker. MOLSING, Karina Veronica.STREY, Claudia. Apresentação – Linguística Pragmática e suas interfaces. Revista Digital do Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS Porto Alegre, v. 8, n. 1, p. 1-7, janeiro-junho 2015

MARQUES, Mônica Bernardo Schettini. Sobre a Percepção. Cognitio/Estudos: Revista Eletrônica de Filosofia, PCU, São Paulo.  Número 1 – 2004.

MATOS, Ecivaldo de Souza. STRAFORINI, Rafael. A EMERGÊNCIA DO DIÁLOGO ENTRE RACIOCÍNIO SEMIÓTICO ABDUTIVO E CONHECIMENTOS PRÉVIOS NA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA. XII CREAD MERCOSUR/SUL. CONGRESSO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA. Rio de Janeiro / RJ / Brasil - 5 a 8 de outubro de 2008.

PEREIRA, Otaviano. O que é teoria. 7ª ed. São Paulo. Coleção Primeiros Passos, 1990.
SANTAELLA, Lúcia. O que é Semiótica. Ed. Brasiliense. Coleção primeiros passos. São Paulo, 2012.

SANTAELLA, Lúcia. Epistemologia Semiótica. Cognitio, São Paulo, v. 9, n. 1, p. 93-110, jan./jun. 2008.

SPECIA, L. Modelagem de um Interpretador Lexical para a Linguagem DART.
Cascavel, 2000. Disponível em:
<http://www.nilc.icmc.usp.br/~specia/publications/MonoGrad2000-Specia.pdf > Acesso em: ago 2016.

VIEIRA, R; STRUBE, V. L.. Lingüística Computacional: princípios e aplicações. Rio
Grande do Sul, [entre 2002 e 2004]. Disponível em:
<http://www.inf.unisinos.br/~renata/laboratorio/publicacoes/jaia12-vf.pdf> Acesso em: ago 2016.
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WIKIPÉDIA. Ciência da Computação. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ci%C3%AAncia_da_computa%C3%A7%C3%A3o. Acesso em: ago 2016.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA NAS ESCOLAS MUNICIPAIS: de que forma a internet e os recursos tecnológicos podem aumentar o poder de comunicação social do aluno?


         O ensino de Língua Portuguesa - LP - deve ser um processo dialético aberto para o mundo e voltado sempre para a realidade social do aluno. Nesse sentido, Mendonça e Bunzen (apud KLEIMAN, 2005) afirmaram que “quanto mais à escola se aproxima das práticas sociais, mais o aluno poderá trazer conhecimentos relevantes das práticas que já conhece, e mais fáceis serão as adequações, adaptações e transferências que ele virá a fazer em outras situações da vida real”.
Para possibilitar essa abertura para o mundo, o ensino da Língua Pátria deve considerar o contexto sociocultural envolvendo as comunidades onde o aluno interage e depois estimular os usos frequentes da leitura e da escrita como um processo preocupado com o mundo real atendendo, assim, às necessidades das pessoas para um mundo letrado, aberto à contemporaneidade em que se vive.
           A importância das metodologias adequadas ao ensino de LP deve estabelecer relações diversas entre o que é estudado e o que é ensinado, por isso, precisamos pensar o ato de ensinar (GIL; ABRAHÃO, 2008).
O professor nesse contexto precisa estar preparado para analisar constantemente a prática de lecionar como um ato técnico, mas também ético e político. Desse modo, sua preocupação sobre o currículo selecionado somente vai atingir significativamente as necessidades de letramento do ser social e global se ele conseguir efetivar a discussão aberta para o mundo, consequentemente, interrelacionando alunos, professores e a sociedade com suas múltiplas formas de expressão, entre elas, a internet, que juntos devem ser canalizados para fazer o currículo escolar como um instrumento existencial da pessoa e não apenas um formalismo da sala de aula da escola.
     Andrade (2007. p.128) afirmou, nesse sentido, que “a formação docente constitui-se essencialmente na transmissão de conhecimentos científicos, e é preciso que tal transmissão, para que seja efetiva, não seja uma via de mão única, mas seja permeada pela voz docente, que dá a medida da recepção dos conhecimentos”.
Idealmente, o professor não pode somente ser uma caixa fechada contendo conhecimentos de livros e de teorias que ele conhece no contato com a Universidade, e que não passam adiante para o mundo do jovem e da criança. Por isso, o professor também precisa ter conhecimentos práticos, uma boa formação no sentido de saber fazer estratégias; ter habilidades.
Sem dúvida, o saber fazer vai estar acompanhado com a prática relacionada a uma teoria adquirida através da relação entre letramento e domínio da escrita acadêmica. Mas na realidade escolar, as habilidades tem aparecido menos; enquanto as capacidades teóricas do professor têm aumentado substancialmente com o ingresso na Universidade e com a realização de cursos de atualização.
Percebemos facilmente as dificuldades que os professores possuem em lidar com a língua escrita na sua diversidade social, e consequentemente com os objetos da cultura erudita e popular. Essa dificuldade é prejudicial para o aluno, pois além de ser uma forma desagradável de conhecer a língua, não confere ao aluno nem capacidade nem habilidade para coexistir e conviver com a realidade como ela é: heterogênea, complexa, onde a linguagem cotidiana absorve níveis variados de expressão.
Segundo Wilson (2008) “para muitos estudantes de Letras, dominar a variante culta da língua é um dos primeiros desafios a serem superados”. Com base na fala desse autor nota-se a acomodação dos docentes de LP em focar a utilização “pura, ou correta” da linguagem, buscando ter capacidade, erudição, assim reforçando o uso da língua formal como dominante no dia a dia deixando de fora outras formas da língua considerada como “errada”. 
          As habilidades do como fazer a prática docente da Língua Portuguesa exige o intercâmbio com os conhecimentos e o uso de tecnologias da informação mais atraentes, efetivas, e reais do cotidiano. Como bem observou Almeida (2006 p. 49), o raciocínio, o cálculo, a escrita, o arquivo, o registro, a linguagem rigorosa da ciência, a criatividade, o raciocínio espacial, são todas habilidades e técnicas colocadas em questão e que nos remetem diretamente à interdisciplinaridade.
Mas como se relaciona a interdisciplinaridade com a informática?
         Silva (2011), por exemplo, fornece-nos uma explicação para o questionamento acima. Fala sobre a emergência da cibercultura constituída por novas práticas comunicacionais, como por exemplo: e-mails, chats, listas, weblogs, jornalismo online, webcams etc. Assim entende-se a grande necessidade do professor de LP se fortalecer na prática pedagógica através das TIC’s e da interdisciplinaridade.
          Na relação da linguagem com a tecnologia da informação segundo Amora (2011) “é necessário que o receptor tenha conhecimento da língua para decifrar as mensagens que são enviadas pelos meios tecnológicos”. Assim o professor não pode apenas oferecer aos alunos o conhecimento para decifrar os códigos da língua portuguesa, mas oportunizar condições de que o mesmo interaja de forma significativa com esses tipos de textos variáveis.
           A leitura na Internet precisa ser direcionada pelo professor de LP aos alunos de forma ampla cujo objetivo é melhorar o processo de aquisição de conhecimento no mundo letrado do virtual ao real e do real ao virtual onde o acesso à informação e a produção do saber transformam-se, afinal, em competências capazes de possibilitar práticas de leituras contínuas entendidas como atividades estruturantes do conhecimento e da cultura.
De acordo com Silva (2008 p.14) “espera-se que todos os indivíduos sejam devidamente preparados para a compreensão e o manejo de todas as linguagens que servem para dinamizar ou fazer circular a cultura”.
Cada vez mais, tem-se observado no contexto escolar o uso frequente da internet e informática sob uma abordagem educacional como recurso pedagógico importante. Mas atenta-se para o fato de que a tecnologia não resolveu todos os problemas educacionais especialmente os voltados para a capacidade de leitura e escrita; e de alguma forma trouxe ao debate novas questões de (re)ver a relevância do letramento viciado pelo tecnicismo.
“Do ponto de vista textual, o tecnicismo tem um interesse especial no que diz respeito ao modo de se estruturar um texto e de nele navegar ou, em termos mais técnicos, em relação a sua coerência e coesão” (Freire, 2008 apud Koch, 1998).
Então, percebe-se no uso constante da internet influências nas formas de leitura e produção textual voltada para a rede mundial como, por exemplo: chats, messenger, e-mails, mais atualmente What’s up, que agora devem ser vistos não apenas como peças de comunicação mas como símbolos de poder de comunicação e de manifestação da presença do ser humano no mundo.
            Por outro lado, o professor precisa se libertar do tecnicismo e buscar ajuda no extremo da Humanismo, e assim alcançar uma terceira via, por exemplo, construcionista onde o professor passa a ser um mediador e incentivador da língua portuguesa como porta de entrada para a cidadania.
Ou seja, não se pode negar a importância do ensino técnica da língua, porém, essa técnica deve estar a serviço do poder de comunicação. Isso precisa ser enfatizado pelo professor ao aluno, ou seja, quem sabe mais a língua portuguesa, tem mais poder de competição, mais poder de compreensão, mais poder de adaptação ao mundo.
A inserção da web na efetivação de parte do currículo está sendo vista de modo a contemplar os demais conteúdos ministrados. Nessa direção, podem os professores e alunos on line comportar-se e agir de forma construtiva. A escola através do processo ensino-aprendizagem dentro da disciplina de LP contribui nessa perspectiva de trabalho para desenvolver leitores e escritores ativos e inseridos no mundo onde as palavras se fazem presente o tempo todo.
Nesse ponto, Almeida (2008) faz-nos uma pergunta: “como as pessoas leem na web?” A resposta dada pelo autor é que as pessoas simplesmente não leem por razões de estarem em frente a um mundo de informações, e estão desconfortáveis por estarem em frente a uma tela.
            Nesse caso, a realidade mostra a ação mecânica do professor tecnicista e ortodoxo não traz um avanço existencialista para o jovem no século XXI. Segundo Galli (2010 p. 148) a internet tem se tornado um dos meios de difusão de mensagens mais acessíveis e, desse modo, sua linguagem também se propagou e se tornou globalizada. Por isso, considera-se hoje essencial o uso da internet no campo educacional especialmente no ensino da LP, pois o uso da língua de forma dinâmica se faz presente em todas as esferas sociais.
Ainda segundo Marcushi (2010) “todos os gêneros textuais eletrônicos provocam polêmicas quanto à natureza e proporção de seu impacto na linguagem e na vida social”. Percebe-se mediante a exposição desse autor a grande necessidade do professor deixar a ação mecânica ou tecnicista da língua e da máquina, e abrir-se para a cultura digital e tecnológica, assim, abandonar técnicas gramaticais e conceitos fechados para o mundo, pois os ambientes virtuais que se fazem presente na vida desses profissionais e dos discentes são extremamente versáteis, comunicativos, abertos.
            Falta em tudo isso uma discussão existencialista profunda sobre a prática do professor, pois ele geralmente está “ausente” do grande mundo. Segundo Pelandré (2008 p. 244) “professores dizem pelos seus discursos entender as propostas para o ensino de língua portuguesa, baseado na concepção sociocultural e enunciativa da linguagem”.   
Vários autores consideram, nessa perspectiva existencialista, que é possível ligar o real ao ideal e vice-versa no ensino de LP relacionado ao uso da rede mundial, observando as seguintes questões estratégicas:

Transformação Cultural. É preciso estabelecer mudanças de atitudes relacionadas ao uso das tecnologias da comunicação e da informação voltadas para o processo ensino-aprendizagem. Os alunos podem e devem adquirir uma consciência de como utilizar todos os recursos tecnológicos voltados para a aquisição da produção de leitura e escrita assim fazendo parte do mundo letrado para contribuir de forma significativa na expansão da cultura. O trabalho intelectual passa a adquirir outros contornos, e a escola passa a ser obrigada a assumir outro papel. Já não pode ser repassadora física de informações, por uma razão muito simples: essas informações já estão disponíveis nos meios eletrônicos de comunicação e são passados de forma até mais eficiente. Cabe à escola, nesse novo contexto, trabalhar outros elementos, “sobretudo a ética de acesso a essas informações, o seu significado político, a sua importância existencialista para o progresso da humanidade” (ver, por exemplo, PRETO, 2008, p.142).

Conhecimento voltado para “saber” utilizar, ou seja, desenvolver habilidades. O professor precisa estar constantemente lendo, refletindo, analisando sobre sua prática pedagógica, buscando meios, recursos para adaptar-se as mudanças sobre as novas formas de ensino envolvidas na relação do ensino com a internet, por exemplo, vídeos aulas, chats, sites, jogos, redes sociais dentre outras. De acordo com Freire (2011, p. 52) “o conhecimento exige reflexão (tempo e maturação) e seleção (critério, crítica)”. Com isso, percebe-se a necessidade real do professor em “saber fazer” a sua prática pedagógica voltada para o papel social ideal da escola.

Baseado nos autores citados, percebe-se que no debate da formação do professor aparecem os seguintes pontos críticos:

Necessidade. O professor precisa saber interpretar símbolos, significados, até mesmo as metodologias para compreender e entender o significado. “O sentindo de um texto não existe a priori, mas é construído na interação sujeitos-texto e para a produção de sentido, necessário se faz levar em conta o contexto” (KOCH, 2011, p. 57). Significa considerar então o contexto no processo de leitura e a produção de sentido como algo muito importante para que o professor de LP entenda e interprete o seu fazer e atinja seus objetivos pautados em uma educação voltada para a inserção dos alunos no mundo letrado sendo ele virtual e real.

Possibilidades. Pensar nas possibilidades de melhoria significa a esperança de mudanças que são possíveis através de debates, estudos, pesquisas para compreensão dos diferentes modos de utilização da linguagem. Por exemplo, Amaral (2008, p. 45) afirma “é necessário refletir sobre como “isso” está ocorrendo; quais os critérios que orientam a aquisição dessas novas linguagens, além de verificar a construção de novas redes semânticas entre conteúdos e significados disponibilizados”.

Realidade.  Autores como Passarelli (2008, p.221) afirmam que “é preciso conceber a linguagem não só como forma de interação, mas como processo interacional entre os sujeitos que utilizam a língua em suas variedades para se comunicar, para exteriorizar pensamentos, informações, e, para realizar ações com o outro, sobre o outro”. Portanto pensar a realidade, analisá-la e interpretá-la são importantes pela necessidade de se entender como ocorrem as diversas formas de interação entre os usuários da LP e as ações que um exerce sobre outro e assim, depois, pensarmos como a rede mundial de internet tem influenciada a exteriorização dos pensamentos em seus diversos tipos.

Idealidade. Qual a forma ideal para o professor de LP ministrar as aulas e contribuir aos alunos condições básicas de aproveitamento no campo da leitura e escrita? Como deve ser o comportamento e as tomadas de atitudes desses frente ao grande número de informações, de textos de gêneros diversos em situações reais na vida e no campo virtual pelo acesso a rede mundial de computadores?

Alternatividade. Acredita-se que há inúmeras alternativas para buscar melhorias no ensino de LP. Por exemplo: Formação Adequada, Identidade Profissional, Relação com as TIC’s, Comunicação e Socialização, Autoridade em Sala de Aula, Visão Pedagógica, etc. No que se refere à Formação percebe-se a grande necessidade do professor ingressante ser capaz de articular conhecimentos de interface com a educação, fazer ações de inclusão e de valorização da diversidade e singularidade, elaborar planejamento orientado a processos de construção do conhecimento, metodologias e recursos pertinentes aos objetivos do trabalho pedagógico e aplicar procedimentos avaliativos que reorientem a prática educacional. Nesse conjunto a construção da identidade profissional contribuirá para a versatilidade e capacidade da realização de um trabalho competente.
            Concluindo, queremos dizer que a relação com as TIC’s é um fator essencial no ensino de LP voltada para as redes sociais, e uso dos recursos tecnológicos a serviço de uma ampliação da comunicação, socialização e educação. Tudo isso trabalhado com a “Autoridade em Sala de Aula” pode avançar a cada etapa através de competências acadêmicas na construção do conhecimento oferecendo e inserindo o aluno dentro da sociedade tomada pela informação e o mesmo fazendo emprego constante e ativo das diversas formas de linguagens, onde capacidade e habilidade precisam estar integradas.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Fernando José de. Educação e informática: os computadores na escola. São Paulo: Cortez, 2005.
ALMEIDA, Rubens Queiroz de. O leitor-navegador (I).  A leitura nos oceanos da internet. 2 ed. São Paulo: Cortez, 2008.
AMARAL, Sergio Ferreira do. Internet: novos valores e novos comportamentos. Ezequiel Theodoro da Silva (org.). Leitura no mundo virtual: alguns problemas. A leitura nos oceanos da internet. 2 ed. São Paulo: Cortez, 2008.
AMORA, Dimmi. Professor, você está preparado para ser dono de um meio de comunicação de massa? Tecnologia e Educação: as mídias da prática docente. Wendel Freire (org.) 2. ed. Rio de Janeiro: Wak Ed., 2011.
ANDRADE, Ludmila Thomé de. Que linguagem falar na formação docente de professores de língua? Teoria e práticas de letramento. Org.: Lia Scholze. Tania M. K. Rösing. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2007.
FREIRE, Fernanda M. P. A palavra (re)escrita e (re)lida via internet. A leitura nos oceanos da internet. 2 ed. São Paulo: Cortez, 2008.
FREIRE, Wendel. Mídia-Educação: Reflexões e prática de um terceiro espaço. Tecnologia e educação: as mídias na prática docente. Wendel Freire (org.). 2. ed. Rio de Janeiro: Wak Ed., 2011)
GALLI, Fernanda Correa Silveira. Linguagem da Internet: um meio de comunicação global. Hipertextos e gêneros textuais: novas formas de construção de sentido. Luiz Antonio Marcushi, Antonio Carlos Xavier, (orgs.). 3 ed. São Paulo: Cortez, 2010.
GIL. Glória. ABRAHÃO, Maria Helena Vieira. Educação de professores de línguas – os desafios do formador. Campinas, SP: Pontes Editores, 2008.
KOCH, Ingedore Villaça. Ler e compreender: os sentidos do texto. 3. ed.. 5º reimpressão. São Paulo: Contexto, 2011.
MARCUSHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. Hipertextos e gêneros textuais: novas formas de construção de sentido. Luiz Antonio Marcushi, Antonio Carlos Xavier, (orgs.). 3 ed. São Paulo: Cortez, 2010.
MENDONÇA, Márica. BRUNZEN, Clecio. (Org.). Português no ensino médio e formação do professor. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.
PASSARELLI, Lilian Ghiuro. Da formação inicial à formação continuada: reflexões a partir da experiência da PUCSP. Glória Gil e Maria Helena Vieira Abrahão (orgs.). Educação de professores de línguas – os desafios do formador. Campinas, SP: Pontes Editores, 2008.
PELANDRÉ, Nilcéa Lemos. Compreendendo a formação de professores numa perspectiva dialógica. Org.: Glória Gil e Maria Helena Vieira Abrahão. Educação de professores de línguas – os desafios do formador. Campinas, SP: Pontes Editores, 2008.
PRETO, Nelson De Luca. Escritos sobre educação, comunicação e cultura. Campinas, SP: Papirus, 2008.
SILVA, Marco. Os professores e o desafio comunicacional da cibercultura. Tecnologia e Educação: as mídias da prática docente. Wendel Freire (org.) 2. ed. Rio de Janeiro: Wak Ed., 2011.
SILVA, Ezequiel Theodoro da. (coord.) Leitura no mundo virtual: alguns problemas. A leitura nos oceanos da internet. 2 ed. São Paulo: Cortez, 2008.
WILSON, Victoria. O discurso científico e a formação do professor. Org.: Glória Gil e Maria Helena Vieira Abrahão. Educação de professores de línguas – os desafios do formador. Campinas, SP: Pontes Editores, 2008.




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O BELO E O FEIO: um estudo comparativo entre a personagem Alícia de Cinzas do Norte, de Milton Hatoum e a Caolha de Julia Lopes de Almeida.

O BELO E O FEIO: um estudo comparativo entre a personagem Alícia de Cinzas do Norte, de Milton Hatoum e a Caolha de Julia Lopes de Almeida.
ALDA SOUSA MATOS
                                                                                                                   FÁBIO CORREIA DE REZENDE

A beleza agrada aos olhos, mas é a doçura das ações que encanta a alma.
Voltaire

           Este trabalho tem por objetivo fazer uma análise sobre os aspectos relacionados aos padrões de beleza estabelecidos pela sociedade, por exemplo, postura, cabelo, vestuários, vocabulário, entre outros, ou seja, como a sociedade acolhe aqueles que não se enquadra nos padrões instituídos e como a literatura reflete as relações do “homem” com o mundo.
Numa concepção história, não há como esconder que os conceitos de “Belo e Feio”, são desde cedo, assimilados e instituídos dentro da convivência social. A concepção sobre o que é belo e feio, sempre foi tratada, historicamente sobre diversos aspectos, especialmente sob o senso comum, de forma generalizada e genérica. Na infância, por exemplo, somos estimulados a entender o que pode ser belo e o que pode ser feio, sendo que na maioria de alguns contextos, por exemplo, nas histórias infantis, o “Belo” é sempre o bom, agradável, o que vence o mal e no final tudo termina perfeitamente bem. Enquanto o “Feio”, os podem ser os seres que representam o mal, o antagonista das histórias e estórias, são os reclusos a uma vida de solidão, dor e perversidades. Desde crianças, somos acostumados a identificar bruxas como fazendo parte do lado do mal e associando-as a sua aparência de feiúra. Podemos citar a fábula de Branca de Neve, além da beleza pré-estabelecida pelo personagem é foco de desejo pela madrasta, a qual é a vilã, e se transforma em bruxa feia e má. Segundo Eco (2007,p.212), as bruxas com sua aparência de velhas e feias são constantemente  recuperadas nas “histórias fabulísticas”  e de terror. A beleza e a feiúra sempre estiveram entre as discussões existentes em todos os tempos, de todas as sociedades e isso refletiu em todas as esferas da sociedade.
 Na era contemporânea, onde as imagens, coloridas, vivas, repletas de efeitos através da cultura multimídia, e os meios de comunicação são o principal mecanismo de propagação de como a sociedade pensa e concebe o Belo e o Feio, contribuindo para a (re)produção de estereótipos. Desse modo, esse trabalho busca analisar a produção de sentidos sobre o Belo e do Feio tem se apresentado como fonte riquíssima de pesquisas acadêmicas nas representações sociais. Optamos por nomear os termos Belo e Feio com as iniciais ora maiúscula e ora minúscula, mas sempre no mesmo sentido.
Em torno destas classificações, elegemos como corpo de análise, a personagem Alícia do romance Cinzas do Norte, do escritor amazonense Milton Hatoum, sendo ela uma representante da beleza desejada e estereotipada na sociedade. Cinzas do Norte é o relato de uma longa história que se passa em Manaus nos anos 1950 e 1960. Dois meninos, de um lado, Olavo, de apelido Lavo, o narrador e órfão, cresce à sombra da família Mattoso; de outro, Raimundo Mattoso, ou Mundo, filho de Alícia, mãe jovem, e mulher do aristocrático Trajano. Para Trajano, a Vila Amazônia, é o seu palacete.  
 Alícia é o retrato da cabocla amazonense, inconfundível na sua beleza e nos seus conflitos, vivendo e sobrevivendo da riqueza e da miséria, conflito da ancestralidade e da confusão de raças, culturas e sangues, incompatibilidade necessária e busca de unidade humana no outro.  Ela não sabia e nunca soube quem era o seu pai, talvez um francês que só deixou um vestígio nas Cinzas do Norte. A mulher pobre que um dia aportou na beira do rio Negro, acompanhada por sua irmã Algisa e uma índia, mantenedora de exóticos costumes, casou-se com um descendente de português. Este homem rico e mesquinho, dono da Vila Amazônia. O senhor Jano.
Como contraponto, queremos estabelecer relação entre a personagem de Cinzas do Norte, Alícia com a personagem do conto "A Caolha", de Julia Lopes de Almeida. Temos um narrador observador. Os personagens principais são A Caolha e o seu filho Antonico. Como características marcantes do conto, podemos destacar a descrição minuciosa dos personagens, seja fisicamente, ou psicologicamente. Dona “Caolha” é uma mulher magra, alta, macilenta, peito fundo, busto arqueado, braços compridos, delgados, largos nos cotovelos, grossos nos pulsos; mãos grandes, ossudas [...] boca decaída, numa expressão de desprezo, pescoço longo, engelhado, como pescoço dos urubus; dentes falhos e cariados”. (ALMEIDA, conto A Caolha)
Tais características nos fazem pensar que se trata de uma senhora de idade avançada e que sofrera muito em sua vida é uma senhora de origem humilde que não tem muitas expectativas de vida, com condições desumanas impostas aos deserdados propiciando uma compreensão critica das condições sociais, materiais e culturais situadas na obra.
Entre as duas personagens, podemos observar as diferenças marcantes na construção da identidade. Segundo Tomás Tadeu da Silva (2008), a identidade e a diferença são determinadas pelos sistemas discursivos e simbólicos que lhe dão definição, ou seja, de um lado Alícia, vivendo sob a pressão do esposo Jano para realizar o sonho do seu filho Mundo, o de se tornar um artista, e do outro a Caolha, sem esposo, trabalhando dia a dia para projetar uma vida “melhor” para o seu filho.
 A literatura, e todas as formas artísticas, é uma das práticas, de que o homem se vale para conhecer e para suportar o peso da realidade empírica e de encontrar respostas às angustias e aos entraves da própria condição humana e aos entraves dispostos na história. Assim, no texto literário, cabe a cada um de nós, quer as alegrias quer as desgraças impostas pelas nossas circunstancias ou pelas personagens. Pensemos, em primeiro lugar, na realidade da própria condição humana. Como é sabido, a condição humana, no seu sentido antropológico, pode ser vista como trágica, porque continuamente e sem saída, ela está a mercê das intempéries e do imprevisível, inclusive da morte, sobre a qual nenhum de nós tem controle. Nesse sentido a condição humana é o fatum (fado, destino) inexorável do trágico. É o acidental, o fortuito que, quando menos esperamos, nos apanha esmaga sem remorso, sem misericórdia ou sem os meios do livramento. Para falar disso há narrativas, desde os primórdios da escrita, que expõem a perplexidade, a revolta e a angustia desta condição para a qual o homem busca meios de a suportar ou a ultrapassar. Como se não bastassem a correntes da condição humana, a ela vêm somar, em segundo lugar as ideologias, dentro desse arcabouço, os padrões de beleza que é definido por uma cultura que privilegia o olhar masculino, mas isso não se reduz a homens ou mulheres. É uma questão cultural. (SANTOS, 2001)
O fatum da Caolha era a feiúra, pois as pessoas que não se adequam ao padrão de beleza vigente tendem a ser excluídas da sociedade é como se ser feia não preenchesse o requisito de ser fêmea. E o personagem da literatura em destaque aqui é para essa reflexão. Por isso todos temos que ser conhecedor das condições humanas, no seu sentido antropológico bem como no sentido sociológico. Segundo Candido (2006), a estas formas de se conhecer de se conhecer o ser humano poderíamos acrescentar o conhecimento teórico-artístico, o psicológico, o filosófico, o lingüístico discursivo, entre outros. Um texto literário contem, de forma simbólica, esses conhecimentos. É por isso que tem fôlego para ultrapassar o tempo, o espaço e o destinatário da produção. Como lhe é próprio uma leitura de um texto literário faculta o leitor a oportunidade de entrar no universo por ela figurado, cujo cabedal lhe oportuniza ordenar os pensamentos e sentimentos, organiza a visão de mundo e de si mesmo diante do outro e do universo.
Por essas peculiaridades, o conto A caolha, figura um universo narrativo com alcance humanizador, universo que revela a contrapelo, o quanto a vida humana pode ser pisoteada pelas condições matérias e socioculturais que historicamente constituem a sociedade brasileira. Entendo aqui por humanização o processo que confirma no homem aqueles traços que julgamos essenciais, como exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do amor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. (CANDIDO, 1989,p.117).
Para concluir, percebemos o quanto estereotipadas estão as personagens descritas e analisadas, na obra de Hatoum e no conto de Almeida. Percebemos, através delas a concepção enraizada e estigmatizada na sociedade sobre os conceitos de “Belo e Feio”. Os padrões de beleza impostos pelas normas sociais, a noção do Belo como o centro e o Feio como margem, conforme Hugo Achugar em Planetas sem Boca (2006), “somos sujeitos, ocupando algum espaço. É preciso dar voz e espaço para externar seu ponto de vista”. E apesar das diferenças entre as duas personagens, ambas ocupavam seus espaços e pela falta da oportunidade da Caolha, não pode expressar sua voz, e nem Alícia, mesmo relutando contra Jano, sempre era silenciada.



REFERÊNCIAS
ACHUGAR, Hugo. Planetas sem boca: escritos efêmeros sobre Arte, Cultura e Literatura. Tradução: Lyslei Nascimento. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.

BORGES, Rudinei. Essencial de Milton Hatoum. https://arusetima.wodepress.com/2009.

CANDIDO, A. Literatura e Sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.

CANDIDO, A. Direitos humanos e literatura. In: Fester. A.C.Ribeiro(Org.). São Paulo: Brasiliense, 1989.

ECO, Umberto. História da Beleza. Trad. Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2004.

_______, Umberto.História da Feiúra. Trad. Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2007.

HATOUM, Milton. Cinzas do Norte.  São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
MORICONI, Ítalo (Org.). Os cem melhores contos do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

SANTOS, L.A.B; OLIVEIRA, S. P de. Sujeito, tempo e espaço ficcionais: introdução à teoria da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

SILVA, Tomás Tadeu da. (org.) Identidade e diferença: a perspectivas dos estudos culturais. 8 ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Rocco 2008.







terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Línguas Indígenas, Contato, Relações Interétnicas



Línguas Indígenas, Contato, Relações Interétnicas


           ALDA SOUSA MATOS1
FÁBIO CORREIA DE REZENDE2


1 Aluna do Curso de Especialização em Literatura – Unifesspa e Cientista Social
2 Aluno do Curso de Especialização em Literatura – Unifesspa e Profr. na Educação Básica


Falar sobre os povos indígenas ainda é um assunto que nos remete a muitos tabus e divergências, isso muito por conta de como se deu a colonização no Brasil, os portugueses que para cá vieram, ignoraram, arruinaram os povos que aqui viviam, a colonização trouxe muitas seqüelas para os povos indígenas, muitos foram dizimados, foi usurpadas suas terras, cultura, sua essência. Ao recorremos à história oficial, veremos fatos narrados através de um observador centrado na subjetividade, no misticismo, numa visão canônica e eurocêntrica, a qual colocou os indígenas num patamar de seres subalternos, sem almas, demoníacos, incapazes, preguiçosos e dotados de Culturas inferiores.
E na esteira da destruição a cultura indígena foi assolada inclemente mente, e é de suma importância os estudos sobre a cultura dos povos indígenas, para que possamos desmitificar muitos de nossos preconceitos, inicialmente vamos levar em consideração alguns aspectos, como por exemplo, a etimologia de alguns termos. É ideal que se use a palavra aldeia, aldeamento ao invés de tribo, pois a segunda remete a conceitos negativos e preconceituosos, outro que podemos observar é a própria palavra índio. Sob uma perspectiva histórica, esses povos não são índios, mas sim indígenas, com diversas subdivisões/etnias. O estudo da sociolingüística contribui muito para desmistificar esses (pré) conceitos.
Outras considerações que chamo a atenção são para as temáticas: ações indigenistas, eticidade e a relação interétnica. Os indigenistas são as pessoas especializadas nos estudos das aldeias indígenas. A eticidade é a qualidade ao ético e a moral relacionada aos povos. E interétnica é a relação que ocorre em duas ou mais etnias, como por exemplo, indígenas e os não-índios. (OLIVEIRA, 2000).
Faz-se necessário que as comunidades indígenas comecem a protagonizar sua própria história, e para isso, é necessário conhecer suas origens, compreender o processo das relações de poder que implicou na subalternização de seus povos, o que nos dá uma visão panorâmica dos porquês e como foi feito o contato entre as etnias, e quais conseqüências desastrosas trouxeram essas relações interétnicas, para que possamos conhecer de fato sua verdadeira história.
Vale ressaltar que o Estado contribuiu muito para o silenciamento dos povos indígenas. Vozes que durante muito tempo foram caladas pelos órgãos como o IBAMA, FUNAI os quais falavam em nome das aldeias indígenas, falavam omitindo suas historias, ignorando suas especificidades, como se todas as etnias tivessem os mesmos hábitos e costumes, dentre outros, não dando a oportunidade dessas comunidades tornarem protagonistas de suas próprias vidas, o que contribuiu bastante para o isolamento e a mística em torno dos indígenas.
Muitos grupos buscaram sua autonomia e atualmente podemos observar que muitas dessas vozes já estão sendo ouvidas, discutidas, e analisadas, ou seja, as comunidades indígenas existem e precisam se fazer presente de fato e direito, dentro das esferas sociais na luta por implementação de políticas públicas que atenda às suas especificidades.
Desse ponto de auto afirmação da Identidade, fazer ouvir suas vozes caladas, numa visão individual e coletiva leva a uma aceitação do bidimensionamento, onde Bahbha chama isso de “arestas”, os espaços que o EU em busca do OUTRO, nesse universo biossocial, faz-se num campo individual e coletivo possibilitando sair do etnocentrismo para um anti-etnocentrismo.
Essas visões diferenciadas pode nos levar a analisar sobre o seguinte aspecto que é primordial para a Identidade Cultural dos indígenas, a visão deles sobre a Terra, ou seja, sob qual olhar temos que entender e perceber o sentido social, cultural e humano no campo da subjetividade que a Terra faz parte para eles. Observar essas visões diferenciadas sob uma perspectiva ética pautada no etnodesenvolvimento. Para Oliveira (2000), o etnodesenvolvimento se dá através de dois aspectos: visão interna ou endógena, e planejamento, execução e avaliação.
O QUE DIZEM OS LIVROS DIDÁTICOS SOBRE AS SOCIEDADES INDÍGENAS NO BRASIL
            A representação do índio na sociedade acontece de forma celebrativa no dia 19 de abril. Essa data, porém é tratada nos livros didáticos de forma equivocada e distorcida. “O conhecimento ainda não ultrapassou os muros da academia, sobre os indígenas, a produção acadêmica, ainda não tem tido o impacto que poderia ter”. (GRUPIONI, 2004, p. 481).
            O que de fato Grupioni nos propõe é uma reflexão acerca da visão sobre a população indígena que a escola tradicionalmente tem repassado aos sujeitos participantes dela, ou seja, uma visão de que o índio é aquele ser que vive na mata, pesca, usa a flecha e o arco para caçar sua própria comida, ou seja, uma visão unilateral, a qual os historiadores colocam como o sujeito como algo imutável como no período da história que já tem mais de 1500 anos.
            A desinformação é marcada pelo preconceito e discriminação no (des) entendimento a qual a sociedade tem pelo conceito de cultura, a qual pode entendê-la como a capacidade do ser humano de criar significados, onde cada cultura vê o mundo através de pressupostos que lhe são próprios.
            Nesse campo, o livro didático é uma fonte importante na formação da imagem que temos do OUTRO. É uma autoridade tanto na sala de aula, quanto no universo do aluno. A questão é como essa visão do OUTRO, no caso a população indígena tem sido vista pelo olhar do nosso aluno na educação básica, e que se perpetua até o ensino superior, a qual já está enraizada essa visão negativa e limitada acerca das comunidades indígenas e para modificá-la é preciso percorrer um longo e tortuoso caminho.
            Podemos assim questionar: Como o livro didático tem trilhado a temática indígena? Qual a imagem do índio? Qual informação sobre a cultura de outros povos tem repassado aos alunos? Não é tão difícil pensarmos as respostas para essas perguntas, pois pelo contexto nos livros didáticos, há uma nacionalidade que surge com a diversidade, ou seja, índios são retratados no passado. Aparece em função do colonizador através de uma historiografia totalmente européia.
            Infelizmente o índio é coadjuvante e não sujeito de sua própria história. Os livros didáticos não os consideram como atores que influenciaram na construção dos fatos no nosso continente. É visto como um paradigma da evolucionista. (GRUPIONI, 2004). O livro didático geralmente tem mostrado os indígenas como seres que fazem canoas, andam nus, se enfeitam, comem mandioca. A ausência do relato sobre a complexidade de sua vida, ritual, as relações com o mundo, sistema de parentesco e descendência, ou seja, o índio é um ser genérico.
            Partindo desse contexto do livro didático, pensemos sobre a seguinte pergunta: O que é a Educação Escolar Indígena? É um projeto étnico ou étnico-político? A palavra educação dá uma responsabilidade aos professores, mas, o foco é que esse papel da responsabilidade deve ser levado e ampliado as famílias, estado, governo entre outras esferas da comunidade escolar. A importância da compreensão da educação diferenciada em relação ao tema indígena. (D’ANGELIS, 2001).
Pensando na escola, a mesma deve atender aos interesses da comunidade. Não sendo uma escola do não-branco, portanto, deve-se repensar e ter um foco a qual a comunidade seja totalmente incluída para que a mesma desempenhe seu papel social indígena. A política de inclusão na educação indígena seja através de um projeto étnico, onde o mesmo seja um projeto histórico elaborado com referência a um grupo ou grupos étnicos, ou seja, a uma ou várias etnias.

Que tipo de projeto interessa a educação escolar indígena? Projeto conservador, liberal, autêntico. Pensar as possibilidades e as inferências do governo, estados e municípios bem como a comunidade escolar. Na visão do autor, D’Angelis, um projeto político transformador deve ser o ideal para a educação indígena. Na busca e na conquista da autonomia de fato.

 O ATO DE PLANEJAR
            O Brasil atualmente tem cerca de 180 línguas indígenas faladas, porém muitas delas estão em extinção. As relações de poder e as intenções políticas colaboram para a morte dessas línguas a qual deixam de ser transmitidas de uma geração a outra dentro das comunidades indígenas. Essas relações de poder e a política em vigor estão imbricadas no capitalismo exacerbado, na relação de subordinação dos grupos menos favorecidos que tem suas culturas tratadas de maneira secundaria o que contribui para que os falantes nativos deixem de utilizar sua língua natural. 
            Historicamente, a política lingüística no Brasil, começou quando o marquês de Pombal, em 1757, institucionalizou a Língua Portuguesa como língua oficial brasileira nas escolas públicas e proibiu o ensino e o uso das línguas indígenas. (GONÇALVES, 2009, p.208).
            Fatores sociais, econômicos e culturais contribuem para uma decisão inconsciente para deixar de falar uma língua. O status, prestígio de uma língua é outro fator que a faz ser esquecida. Imaginem uma situação típica do cotidiano de uma escola pública, cujos alunos indígenas sofrem bullying por utilizarem a sua língua nativa, então, mediante a situação, preferirão utilizar sempre a língua portuguesa a que o idioma étnico deles, para se enquadrarem dentro do grupo escolar. Uma visão cultural de como EU vejo o OUTRO a partir da minha língua.
            Mas o que vem a ser Política Linguística e Planejamento Lingüístico. Segundo Gonçalves (2009):
·         Política Linguística: são as metas, local ou governamental, para as línguas existentes em uma sociedade ou contexto, é o plano de ação;
·         Planejamento Lingüístico: é a operacionalização de uma Política Linguística, são as ações na prática.
É importante frisar sobre os termos acima, a qual a autora Gonçalves nos traz. Pois as políticas, sejam elas local ou nacional, devem favorecer para a preservação das línguas indígenas. Devemos começar a pensar sob um novo foco, ou seja, a importância cultural das línguas indígenas para nossa afirmação da Identidade, a própria afirmação da Identidade das etnias indígenas na sociedade brasileira.
      Assim, a mesma autora citada nos apresenta três tipos de planejamento Lingüístico, são eles: (i) Planejamento de Status: valorizar, priorizar a língua em qualquer aspecto oral e escrito. (ii) Planejamento de Aquisição: a forma como a língua será ensinada em programas específicos. (iii) Planejamento de Corpus: dar corpo a língua através da escrita, utilizando-se do neologismo. Assim, poderemos observar as seguintes etapas para esses três tipos de planejamento lingüístico: 1. Estabelecer processos e pesquisas. 2. Objetivos a longo prazo. 3. Envolvimento local e periférico (povo e governo). 4. Conflitos entre grupos e pessoas tende a ser amenizados pelo planejamento. 5 . Previne e reduz facções em torno da língua.
Então, para revitalizar o uso e aquisição das línguas indígenas, acredita-se que seguindo os três tipos de planejamento e as etapas apontadas, sempre através de discussões, analises, e as comunidades indígenas em total participação juntamente com o não-índio, será possível, futuramente, muitas das línguas continuarem a existir e o número de falantes e estudiosos aumentando a cada passo.

NÃO DEIXE-ME MORRER
            Tratar das dificuldades em que nos defrontamos em estudar uma língua ameaçada de extinção é abordar aspectos relacionados à morte da língua. Mas afinal, como se categoriza a morte de uma língua? Para Silva (2002, p. 57), “a morte da língua se dá de maneira tão abrupta que não é possível identificar os estágios de desaparecimento de uma determinada língua”.
            Mediante o contexto da morte de uma língua, como pode o pesquisador estudar uma língua com poucos falantes ou às vezes apenas um falante, eis o primeiro caso de morte, as dificuldades do sujeito “real” na pesquisa. Ainda, nesse contexto, temos o segundo caso de morte que são as imposições e opressão política impostas pelos falantes de uma determinada língua, ou seja, o outro não deve falar a sua língua, pois encontra-se numa situação menor, deve usar a língua daquele que se encontra economicamente, politicamente e culturalmente superior. E o terceiro caso de morte de uma língua é quando ela deixa de ser falada cotidianamente e passa a serem usadas somente nos rituais, festas e danças. (SILVA, 2002).
            Podemos perceber o quanto é difícil estudar, pesquisar sobre a obsolescência de uma língua indígena, pois o caso mencionado acima por Silva coloca-nos mediante situações que não estão ao alcance do pesquisador, por mais que o mesmo tenha total condição de realizar as pesquisas, mas fatores podem contribuir para que a mesma não seja realizada, devido à falta de falantes, imposições políticas do colonizador e a situação da falta de utilização rotineira da língua.
            Segundo Lucy Seki (1984) “as línguas obsolescentes – redução gradativa e conseqüentemente desaparecimento, tem sido objeto de estudos e pesquisas pelos lingüistas e outros, porém, ainda é muito pouco o que se tem realizado de fato para evitar a morte de uma ou mais línguas indígenas.
            Um dado interessante que merece destaque é que somente a partir da década de 70, começam a surgirem trabalhos com a perspectiva de analisar o processo de extinção das línguas indígenas. (SILVA, 2002).
            Nas pesquisas a partir da década de 70, é que observamos o quanto diversas línguas poderiam estar em uso, ou muitas delas poderiam ter tido outro viés, além o da morte, claro, pois apesar de termos uma catalogação de um número significativos de línguas é importante estudá-las, codificá-las e cuidar que as mesmas não entrem em processo de desuso. Os povos indígenas necessitam da língua como marca cultural de sua identidade e afirmação, portanto, políticas públicas devem ser voltadas para esse campo de pesquisa, dando total apoio financeiro e estrutural aos pesquisadores lingüistas.
            Esses estudos podem contribuir bastante para as universidades, bem como para a teoria lingüística e, sobretudo para a inclusão das comunidades indígenas na sociedade. O foco está na relação da estrutura e a função da linguagem, ou seja, será através das políticas públicas que as línguas minoritárias passarão a serem estudadas antes que elas deixem de existir, pois afinal, uma língua morre quando ela deixa de ser codificada, descrita, mesmo através de registros, quando deixa de se desenvolver. (SEKI, 1984).
            Como existem as dificuldades para os pesquisadores realizarem seus trabalhos voltados para a morte de línguas, então é de suma importância a formulação de uma metodologia adequada que gere resultados. Assim, Cristófaro-Silva, identificou três categorias de falantes para se entender melhor o objeto da pesquisa, são elas: falantes fluentes, semifalantes e inseridores.
            Através dessas três categorias, elas contribuem para a análise dos dados coletados nas comunidades cujas línguas estão diminuindo o uso freqüente delas. Assim, o pesquisador pode identificar quem são os falantes fluentes, semifalantes e os inseridores, separando-os para que a pesquisa tenha uma relevância maior no campo científico e contribua para a sobrevivência das línguas em extinção.
            A mesma autora cita Dorian, propondo três técnicas para a aquisição de dados na pesquisa de línguas: (i) aplicar questionários com objetivos específicos, (ii) solicitar a tradução de sentenças, (iii) gravar conversar entre falantes. Ou seja, na visão de Dorian, objetividade e facilidades para realizar as pesquisas.
            Outro ponto que destaco segundo Lucy Seki, são outras dificuldades encontradas para o estudo das línguas em extinção, por exemplo: a rivalidade entre os grupos e subgrupos étnicos dentro das comunidades indígenas. E outro fator, é o nível de saberes dos falantes, pois ao passo que as línguas estão se tornando obsoletas, como ter certeza de que a fala do indígena realmente está carregada de essência no uso semântico, léxico, sintático e gramatical. E ainda, temos o número limitado de informantes potenciais e o grau de conhecimento deles devido à interferência da língua portuguesa em suas respectivas comunidades.
              Nossa abordagem inicial foi apresentar um breve histórico sobre a colonização do Brasil e consequente subordinação dos povos indígenas e os impactos que implicaram desse contato que trouxeram sequelas significativas destruídoras a esses povos: dizimação, usurpação de suas terras e cultura.  Logo após, fizemos uma abordagem da visão em que os livros didáticos trazem sobre a presença do índio na sociedade brasileira, o mesmo ainda é visto de forma pejorativa, sem realmente mostrar a comunidade indígena, como sujeitos atuantes culturalmente e iguais a todos.
            Outro ponto foi sobre a Política Linguística e a Política de Planejamento para contribuir na afirmação da identidade indígena e na utilização das línguas como marca primordial na Cultura dessas comunidades. E finalizamos a resenha abordando a temática obsolescência de uma língua, expondo as dificuldades em que os pesquisadores encontram para realizarem pesquisas e colaborarem de forma significativa na luta pela preservação das línguas indígenas.
            Durante toda a produção do texto, trouxemos autores que tem nas suas experiências profissionais de pesquisadores e ou professores uma vasta gama de pesquisas e conhecimentos sobre as comunidades indígenas, assim a resenha está pautada no alicerce teórico construídos por anos de estudos e a nossa contribuição é a de reforçar os estudos pautadas na temática indígena.


REFERÊNCIAS
D’ANGELIS, Wilmar da Rocha. A educação escolar em novos contextos políticos e culturais. Veiga, Juracilda; Salanova, Andrés(Orgs.) Questões de educação escolar indígena: da formação do professor ao projeto de escola./ Darlene Taukane... (et al). - Brasília: FUNAI/DEDOC, Campinas/ALB, 2001.
GONÇALVES, Solange Aparecida. Por um planejamento linguístico local. Revista: Investigação. Vol. 22, no 2, Julho/2009.
GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. Livros didáticos e fontes de informações sobre as sociedades indígenas no Brasil. In: SILVA, Aracy Lopes da. GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. (orgs.). A temática Indígena na escola: novos subsídios para professores de 1º e 2º graus. 4º ed. São Paulo: Global: Brasília: MEC: MARI: UNESCO, 2004.
OLIVEIRA, Roberto Cardoso de. Ação indigenista, eticidade e o diálogo interétnico. Estudos Avançados 14 (40) 2000.
SEKI, Lucy. Problemas no estudo em uma língua em extinção. Boletim da ABRALIN, 06, 109 – 118, 1984.
SILVA, Thais Cristófaro. Morte de língua ou mudança linguística? Uma revisão bibliográfica.Revista do Museu Antropológico - UFG. Goiás. Volumes 5-6, Número. 1. pp 55-73. 2002.



quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Análise textual: Crítica Sociológica de SILVA, Marisa Corrêa.

SILVA, Marisa Corrêa. Crítica Sociológica. BONNICI, Thomas. ZOLIN, Lúcia Osana. (Orgs.). Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. 3. ed. rev. e ampl. Maringá: Eduem, 2009.


No texto A Crítica Sociológica de Marisa Corrêa Silva, tem como foco central analisar o papel da Sociologia, enquanto ciência, nos moldes do campo da literatura, especificamente na literatura feminina/feminista. A autora reforça suas ideias com a teoria de Lukács (1963) a literatura e o desenvolvimento do capitalismo, Bakhtin (1985 – 1975), expondo os seguintes conceitos: dialogismo, carnavalização e cronótopo. E Antonio Candido (1985) enfatizando os problemas que a crítica sociológica apresenta.
A crítica sociológica tenta ver, buscar o fenômeno da literatura como parte de algo maior, um contexto mais amplo, por exemplo: uma sociedade, uma cultura. Ou seja, não analisa isoladamente fatos, datas. Sua premissa é um conjunto, a contextualização, buscando assim, fontes concretas para as análises serem as mais autênticas e objetivas possíveis.
Silva (2009 p. 178). “a crítica sociológica, procura ver o fenômeno da literatura como uma sociedade, uma cultura”. A literatura não é um fenômeno independente e a obra é criada num contexto e perceber através da obra literária, a estruturação da sociedade, valores, regras, cultura, etc.
Nessa perspectiva, a autora faz uma divisão entre os seguintes termos: crítica biográfica: focaliza a vida do autor. Crítica sociológica: focaliza uma visão ampla na qual faz parte da vida do autor. Ou seja, o autor, obra, época, contexto cultural, econômico, social é importante para se realizar uma crítica tanto dentro da literatura quando no campo da sociologia. Para Taine (2009. p. 178), “a obra de um autor é um reflexo da vida e do momento, as condições sociais”.
Lukács (1963), na sua teoria uma visão focada no marxismo, lutas de classe, amplamente confrontando as formas literárias em oposição ao capitalismo. Para ele a literatura não reflete a realidade social. O texto reflete o social. A degradação dos valores causados pelo capitalismo está na literatura.
Bakhtin (1985 – 1975) por sua competência e vasta pesquisa no campo da linguística, tem suas análises voltadas para o contexto em que as obras são escritas e a que tipo de linguagem, significados, sentidos essa obra expõe. Assim, a autora usa o termo Dialogismo para teorizar o texto. Podemos entender o Dialogismo como o foco de quem fala ou escreve leva em conta a presença de alguém, mesmo que esse alguém seja invisível. Assim entendemos que essa relação dialógica ocorre entre o autor, o leitor e os personagens.
Esses personagens, muitas vezes sem voz, calados pelo silencia do falocentrismo, ou condicionados a falarem somente aquilo que o mundo masculino determina, pois essas vozes, muitas vezes, estão ligadas as ideias de valores sociais, condicionada ao contexto social, cultural e econômico.
Outro conceito de Bakhtin e a Carnavalização que é uma inversão de valores na vida cotidiana, uma libertação coletiva e a ridicularizarão do poder. A ordem não é natural e nem absoluta. O foco é a sátira e a crítica. Na literatura a Carnavalização é chamada “Mundo às avessas”.
Outro ponto importante na teoria bakhtiniana é o conceito de Cronótopo, ou seja, é a conectividade das relações de espaço e tempo que são expressas na literatura. A autora do texto utiliza esse conceito para expressar com a crítica sociológica deve ficar atenta aos conceitos de tempo e espaço. Observar onde, como e quando a literatura ocorreu, e seus determinados autores e suas influências.
Para concluir, a Silva, traz as contribuições de Antonio Candido, expondo de forma objetiva a diferença entre crítica sociológica e literária. A primeira é o elemento social da estrutura do texto. A segunda é o elemento social, estético e objetivo do texto.
Portanto, o texto da Marisa Silva, nos oferece oportunidades para refletirmos sobre a Sociologia, enquanto ciência e a Literatura como arte. Assim, fusão das duas ciências é útil para os pesquisadores e autores se utilizarem de diversos artifícios para a construção de obras e teorias.